Especialista aponta que conter resíduos nos cursos d’água é apenas parte da solução: o desafio está em evitar o descarte irregular e dar valor aos materiais recicláveis
A destinação adequada do lixo continua sendo um dos principais desafios para reduzir a poluição dos igarapés de Manaus. Embora as estruturas de contenção instaladas nos cursos d’água impeçam que parte dos resíduos alcance o rio Negro, como ocorre com as ecobarreiras, elas atuam apenas na etapa final do problema, após o descarte irregular de materiais em ruas, calçadas, terrenos e na rede de drenagem urbana.
A própria Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010) estabelece como prioridade a não geração, redução, reutilização, reciclagem e tratamento dos resíduos, deixando a destinação final ambientalmente adequada como última etapa da gestão. Na prática, a legislação reforça que as políticas públicas devem priorizar ações capazes de evitar que o lixo chegue aos igarapés, em vez de atuar apenas na retirada dos resíduos dos cursos d’água.
Na avaliação do engenheiro civil e especialista em saneamento básico Marcellus Campêlo, conter o lixo é uma medida importante, mas insuficiente para enfrentar a origem do problema. Segundo ele, a solução passa por impedir que os resíduos cheguem aos igarapés e por fortalecer ações de reutilização e reciclagem, para que materiais como plástico, vidro, papel e metal sejam reaproveitados na fabricação de novos produtos, em vez de serem descartados no meio ambiente.
“Quando o lixo chega às estruturas de contenção, a falha já aconteceu. O material foi descartado irregularmente e percorreu toda a rede de drenagem até alcançar os igarapés. A solução começa muito antes disso, com o descarte correto, a coleta adequada e o reaproveitamento dos materiais recicláveis, para que sejam transformados em novos produtos, em vez de acabarem nos cursos d’água”, afirma.
Entre as medidas apontadas por especialistas para reduzir a poluição dos igarapés estão o fortalecimento da educação ambiental, a ampliação da coleta seletiva, o combate aos pontos de descarte irregular e a valorização econômica dos materiais recicláveis. A proposta é fazer com que resíduos que hoje são descartados passem a ser reaproveitados pela indústria, reduzindo o volume de lixo abandonado nas ruas e levado pelas chuvas até a rede de drenagem.
“O poder público precisa criar condições para que os materiais recicláveis tenham valor. Quando isso acontece, o que hoje é descartado passa a interessar para cooperativas, empresas e catadores. É um caminho que reduz o volume de resíduos abandonados no meio ambiente e fortalece toda a cadeia da reciclagem”, diz Marcellus Campêlo.
O mercado das latas de alumínio é um dos exemplos mais conhecidos de reaproveitamento de resíduos no país. Em razão do valor comercial do material, essas embalagens raramente permanecem descartadas nas ruas ou chegam aos cursos d’água. Para Marcellus Campêlo, a mesma lógica pode ser aplicada a outros materiais recicláveis. “Quanto maior o aproveitamento dos materiais recicláveis, menor será a quantidade de lixo que precisará ser retirada dos igarapés”, observa.
Experiências voltadas ao reaproveitamento de resíduos também vêm sendo desenvolvidas pelo poder público. No Amazonas, o programa Amazonas EcoLar transforma resíduos plásticos em blocos utilizados na construção de habitações populares.
O projeto piloto prevê a utilização de resíduos plásticos reciclados, como garrafas PET, na construção de 16 unidades habitacionais no bairro Petrópolis, zona sul de Manaus. As obras de infraestrutura serão executadas pela Unidade Gestora de Projetos Especiais (UGPE), enquanto a montagem das casas ficará sob responsabilidade da Defesa Civil.
» EXPERIÊNCIA NA ÁREA
A defesa de políticas voltadas à gestão adequada dos resíduos sólidos acompanha a trajetória profissional de Marcellus Campêlo há mais de três décadas. Em 1992, ainda estudante de Engenharia Civil da então Universidade de Tecnologia da Amazônia (UTAM), ele dedicou seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) ao estudo “Análise da Destinação Final (Aterro Controlado) do Lixo de Manaus”, tema que, à época, ainda ocupava espaço restrito nos debates sobre saneamento e planejamento urbano da capital.
O trabalho foi citado, à época, pelo jornal A Crítica e marcou o início de uma trajetória voltada ao saneamento básico e à infraestrutura urbana.
Décadas depois, Marcellus Campêlo já à frente da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedurb) e da UGPE, onde permaneceu por mais de sete anos, coordenou diversos projetos nas áreas de habitação, saneamento e infraestrutura urbana. Ele deixou os cargos em março deste ano para colocar o nome à disposição do União Brasil, como pré-candidato a deputado estadual. No União Brasil ele é segundo vice-presidente estadual, além de ser membro titular do diretório da Federação União Progressista.
FOTOS: Divulgação


